Paraíso digital: uma distopia sem pai nem mãe

Desculpem a minha sinceridade. O sério problema atual de crianças e adolescentes estarem padecendo de transtornos humanos, classificados como psiquiátricos (ex.: burnout digital), não é uma situação que deve ser encarada como um ponto de cuidado e atenção com os pequenos de nossa sociedade, mas como um objeto de auto reflexão dos adultos com relação à sua própria interação com a tecnologia, em especial a do smartphone. Basta olharmos para nós mesmos, para nossos segundos, minutos, horas, dias e anos de vida perdidos numa relação solitária, desmedida e aprisionante com nossos aparelhos celulares pessoais.  A internet, os consultórios e os congressos estão cheios de especialistas (todos adeptos de uma neurociência precária, reducionista) que dizem ser este um dilema de desequilíbrio quanto ao tempo de uso das novas tecnologias móveis, como o celular e o tablet. Outro dia, recebi uma postagem que alertava:  “Não é sobre o celular. É sobre o que ele está fazendo com o cérebro de nossos filhos”.  A perspectiva abordada sobre a compulsividade no uso do celular é sempre a mesma, dando isenção à tecnologia (não é sobre o celular) e desviando o problema para as pobres crianças que não têm discernimento cognitivo e emocional para lidar com esse tipo de tecnologia (é sobre o que ele está fazendo com o cérebro de nossos filhos). Parece até que nós, adultos (maduros e experientes que achamos ser), temos uma relação adequada e equilibrada com a tecnologia de internet móvel! Abaixo aos tais especialistas e suas teses, pois o problema crucial e socialmente invisível são os adultos e seu transtorno por uso de tecnologia a tiracolo , principalmente a móvel

Não enxergamos a raíz do problema porque adotamos o estilo de vida de conexão digital 24 horas por dia e não estamos dispostos a renunciá-lo, seja  em favor de nós mesmos, seja para o bem das crianças e jovens que convivem conosco.  

Nós estamos conectados ao celular praticamente todo tempo. Só não ficamos olhando o celular quando dormimos. Experimentemos ficar sem o uso do celular para ver se não vamos ficar irritados (como as crianças ficam), muitas vezes desesperados e com o pensamento perdido, pois já não conseguimos mais concentrar nossa atenção longe da tela do celular e sem os nossos dedinhos nervosos para lá e para cá nele. As atividades mais naturais e triviais não têm mais o poder de outrora para encantar e atrair humanos. É claro, a questão com as crianças e os adolescentes é ainda pior porque muitos nasceram olhando para o celular e, fora o universo tecnológico, não tiveram outras experiências de gratificação que pudessem retroalimentar seus sistemas neurais e psíquicos de recompensa cerebral. 

É de conhecimento comum que a força ou o aguilhão da tecnologia em nos conquistar está na facilidade, no conforto e na rapidez de entrega da promessa ostentada socialmente a cada indivíduo, aproveitando-se de nossos múltiplos e personalizados interesses. A utilização da ferramenta celular realmente “facilita” muitas coisas, inclusive a vida moderna de pais e mães contemporâneos que não foram educados para atuarem com foco dentro de casa, com sacrifícios e renúncias de seu precioso tempo e atenção real, mas para se autopromoverem longe do ambiente doméstico, somando direitos e progressos sem fim em suas incansáveis carreiras profissionais, acadêmicas e de bem-estar individual, como a promoção da saúde com o corpo (o organismo físico) e a promoção do prazer subjetivo (hobies etc.). A criação de filhos e a falta de formação de adultos pais são coisas que não combinam. Enquanto a formação edonista e narcisista que tivemos desde o nascimento até completarmos o ciclo da juventude (lá pelos vinte e poucos anos para poucos, trinta e poucos anos para alguns, quarenta e poucos anos para muitos e uma vida inteira para a maioria) nos diz para valorizarmo-nos em todas as nossas pretensões e interesses subjetivos, não sendo bem visto abrir mão de quase nada, a realidade de uma família de pais e filhos sem telas, principalmente a de celulares, nos diz imperativamente o inverso: perca a sua vida em favor de sua constante e máxima presença nos detalhes da vida de seu(s) filho(s). Conviver de modo saudável e natural com os filhos requer de nós sacrifícios intensos em relação às nossas práticas, interesses e individualidades.

Com a formação que recebemos para a vida (toda voltada para o sucesso profissional e nenhuma para a lida paternal e maternal), que pai e mãe vão querer submeter tempo suficiente e adequado aos filhos, sendo que para isso terão que assumir “perdas” radicais em seus hábitos solitários, como suas programações, suas perspectivas de sucesso, seu perfil de ser, de proceder, de falar, seus ideais de beleza, de preferências, de noção de felicidade e de liberdade ? 

Faz tempo que essa questão se acomodou em minha mente, não como quem se assenta num divã psicanalítico para análise do inconsciente, das profundezas ou das sombras, desdobrando-se numa espécie de associação livre, sem quaisquer estratificações ou inibições do superego; ,mas como uma “conversa” introspectiva e sincera no âmbito de uma tal psicologia do espírito humano ou das alturas. O que descobri nesse processo? Que o problema da compulsividade digital na infância e na adolescência não é tanto o de entregar ou não entregar celular nas mãos dos pequeninos e jovens, mas de os adultos estarem inconscientemente resistentes, abraçados, amarrados por um nó que não desata do hábito pessoal de usar o celular o tempo todo, inclusive na frente das crianças

É claro que todos usam o celular de modo desmedido e sufocante mesmo na frente dos filhos, sobrinhos, netos e alunos, pois hoje não há praticamente uma viva alma que desconfie de sua compulsão digital por este pequeno, mas potencialmente nocivo aparelho. No âmbito do estudo das dependências de substâncias e das compulsividades modernas, como a tecnológica, uma característica desponta como comum, qual seja: o usuário compulsivo pela substância ou recurso tecnológico de predileção não se vê como um paciente do transtorno compulsivo, portanto, encontra mil e uma justificativas para olhar para si mesmo como são, não como portador de uma psicopatologia, a fim de continuar seu comportamento aditivo. O resultado dessa “inconsciência”, “cegueira”, “escuridão” ou negação (defesa psicológica ou mecanismo de fuga da realidade intelectiva de si mesmo) não poderia ser outro – o uso ininterrupto do celular, diante de quem quer que seja, inclusive bebês, crianças e adolescentes. 

Muitas vezes nos deparamos com pais e mães enunciando  a seguinte frase em relação a seus filhos: “Deixa ele ou ela usar o celular, para que não fique  para trás, afinal tem que aprender o quanto antes a mexer e acompanhar o mundo tecnológico atual!”.

No cotidiano com os nossos filhos, falamos e agimos assim por desconhecimento da realidade em termos ontológicos. Desconsideramos que tudo que as crianças aprendem provém da observação que fazem dos hábitos dos pais e familiares. Eles nos admiram, somos tudo para nossos filhos, sobrinhos e netos.  Consequentemente, de modo bastante instintivo e natural, tanto desejam ser como nos veem, enquanto seus pais e familiares, bem como almejam fazer tudo que fazemos. 

Nessa observação diária, vendo que todo tempo estamos com o celular na mão, seja resolvendo algo ou simplesmente navegando na rede,  fazem uma leitura explícita e evidente da situação (ou de nossa relação com o celular), qual seja: em primeiro lugar, entendem equivocadamente que a vida se concentra ou se resume a essa prática (todos ao meu redor fazem o mesmo, sem exceções, não há outro modo de agir no mundo); em segundo lugar, percebem que estamos sempre no celular por escolha ou prazer (pois, além do trabalho, o lazer também está sempre ali). Na prática, de que forma assimilam isso? Entendem que celular é fundamental para a existência (não sendo possível vida sem tal ferramenta) e bom, muito bom, extraordinariamente bom, incomparavelmente bom, pois seus ícones de referência, apego, segurança e amor usam o celular para tudo, estando a maior parte ou todo tempo com seus olhos espelhados naquele aparelho pessoal tecnológico. 

Aí está o segredo que, ninguém, nem mesmo os especialistas em cognição e comportamento humano, ousam falar, pois se assim fizessem, precisariam denunciar-se a si mesmos, expondo suas próprias compulsões ou escravidão digital, protegida e guardada a sete chaves.   

A regra natural para qual fechamos os olhos (num mecanismo inconsciente de autoproteção moral psicológica) expõe que pelo nosso hábito de uso compulsivo do celular  viciamos nossos filhos nesta ferramenta (ainda que futuramente) mesmo sem nunca termos dado o aparelho em si nas mãos deles. Sucintamente, o problema atual e crítico das crianças no celular não se restringe ao ato de entrega do aparelho a elas, mas se estende ao ato de favorecermos em suas mentes, ainda em estágio incipiente e tênue de desenvolvimento, a construção de uma mentalidade de abertura a uma vida concentrada e de prazer pelo celular. Embora seja difícil mudar hábitos em torno do uso compulsivo de celular, penso ser mais difícil ainda mudar concepções mentais que favoreçam a ideia de que a vida e seu corolário – o prazer de vida – se realizam ou dependem do celular em quaisquer de suas infinitas possibilidades (jogos, redes sociais, YouTube, compras, mensagens, conversas, videochamadas e outras tantas navegações aparentemente inofensivas). 

lembremos que se usarmos o mecanismo de justificação pessoal para estarmos sempre com o celular nas mãos, tudo será razão para tal ato, pois a tecnologia de rede mundial móvel congregou muitos aspectos do cotidiano nos smartphones.

Uma saída concreta, eficaz e definitiva para a questão está bem distante do horizonte nublado de nossos dias (a digitalização da vida e das relações humanas). Às vezes parece até que nunca mais veremos novamente o sol de uma consciência humana para a necessidade de modificarmos radicalmente, enquanto indivíduos e sociedade, nosso fetiche tecnológico por novas descobertas e inventos, o que nos tem conduzido a uma entrega às cegas a todo tipo de inovações e facilidades digitais surgidas e disponibilizadas no meio social. Junto conosco, nessa distopia de felicidade digital, estão nossos filhos, netos e bisnetos, inocentes e imaturos indivíduos que vem pagando um preço inconsciente, alto e desumano demais, por uma fatura de aposta que é nossa, não deles. 

Sejamos honestos! Nós somos o pai e a mãe dessa distopia digital que assolou, aflige e aprisiona a inocência da infância, a intrepidez da adolescência, a intensidade dos afazeres (ou a “correria”) da idade adulta e a ocupação mais cômoda e fácil na velhice.

 A orientação que levanto para o enfrentamento da questão é a que dei a mim mesmo e a que pude até então construir com o tempo, quando percebi que a raiz do problema da compulsão pelo celular não é estanque, pontual ou setorizada, mas generalizada e mundializada. Consiste, a bem da verdade, em um transtorno compulsivo tecnológico de massa universalizado.

As dicas que trago comigo e compartilho são as seguintes:

1) Como estamos sendo obrigados a usar o celular para mil e uma atividades essenciais do cotidiano, estamos, de certo modo, sem saída para o dilema. Desse modo, usemos o celular naquilo que for estritamente necessário, não perdendo de vista jamais a noção do aprisionamento ao qual estamos sendo submetidos. Assim, fica mais fácil, não entrarmos no perigoso e inconsciente mecanismo psicológico chamado de dissonância cognitiva (ajustar ou dar sintonia entre o que se pensa e o que se faz). 

2) Evitar ao máximo o uso de celular na frente ou no convívio com as crianças e adolescentes. Procedendo assim poderemos auxiliá-los a cosntruir uma mentalidade de que a vida é boa para ser vivida longe do celular e de outras tecnologias que podem ser bastante noicivas ao desenvolvimento humano em geral. 

3) Mantenhamos nossos interesses e prazeres em várias outras coisas belas, úteis e gratificantes fora da vida digital. 

Brinque, leia livros, passe tempo olhando a natureza (mesmo nas cidades), cozinhe, pratique esportes, sente-se à mesa com a família para refeições como antigamente e converse. “Jogue conversa fora” olho no olho com um amigo, servindo um bom café. Ore, fale com Deus. Pare e reflita, pois a vida é mais do que pensamos hoje. 

Abs.

T. Assinger

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