
Era pouco mais de dez horas da noite de 31 de março de 2026. O dia estava se encerrando. Horas haviam se passado sem que a força, a gentileza e a providência do sol estivessem conosco. Afinal, sua majestade é diurna! Os passarinhos também são! Dormem cedo, logo após o exuberante astro rei se deitar, cansado de seu intenso e glorioso dia.
Nós não; não somos tão diurnos assim! Gostamos de conviver e apreciar um pouco da suavidade e da beleza daquela que nunca falta (apressada, às vezes até se adianta combinando luzes com o sol) e graciosamente pode ser chamada de mãe gentil da noite. No avançar noturno, o amor e a alegria estavam presentes, pulsantes, exuberantes. Não tínhamos cabeça para pensar no amanhã, no brilhante e quente sol que certamente viria substituir sua alva e silenciosa irmã. Tínhamos um ao outro, tínhamos a graça de um lampejo criativo musical e imediatamente pusemos em execução um ensaio improvisado com melodia, ritmo e efeitos de voz.
O que poderíamos querer mais?
Sim, registrar na consciência, na acessibilidade memorativa o incrível, profundo e espontâneo momento. É bem verdade que nosso espírito já tinha feito tal assentamento e toda a vivência já estava ali, impregnando-nos de tesouros permanentes, bem grudados feito chiclete de arco-íris ou tutti-frutti.
Uma pausa … um entreolhar … dois sorrisos vibrantes, dois pulos saltitantes e uma corrida, numa carreira só, até a nossa catedral (ou escritório), onde divertidamente gravamos nosso arranjo musical, um esboço de composição feito por pai e filha.
Dias se seguiram aquele esplêndido momento. E em meio a um ambiente pascoal, conseguimos notar algo familiar entre esta e outra conhecida história de amor vivenciada entre pai e filho(a):
1. Um sol que se põe, deixando a noite triunfar, só por um instante. Estamos na sexta-feira de páscoa, logo após a crucificação.
2. Na escuridão noturna, a criatividade de uma relação de amor se sobrepõe ao improvável, ao impossível, mostrando-se maior que tudo, em brilho, flexibilidade e gentileza. Ainda estamos em meio à sexta-feira de páscoa, que insiste em balançar seu escuro véu sobre nós. No entanto, já é possível ver as fissuras no seu velho e sombrio tecido, por onde começam a entrar raios de uma clara, estonteante e transformadora luz;
3. Um insight e o tempo parece parar, renovando nosso entendimento sobre o amanhã que indiscutivelmente virá. Estamos no sábado. Um dia sem tempo, que parece estagnar a vida, cuja esperança se mostra tímida, reclusa, mas insistente, como um mistério bem escondido em suaves, humildes e gentis corações;
4. O amanhã se tornou presente. O sol renasceu como nunca vimos, com toda sua força e esplendor. Finalmente, chegou o domingo pascoal, nele estamos e nele permaneceremos. O que fizemos durante a noite (como aquele arranjo composto entre pai e filha) serviu como triunfo do porvir. Bem-aventurados aqueles que se esforçaram ao máximo para cultivar luz em meio às trevas, amor em meio ao ódio, esperança em meio ao niilismo dos dias atuais e transcendência em meio ao materialismo e panteísmo contemporâneo. Feliz aquele que, mesmo sem forças, acreditou que valeria a pena crer em Jesus, o Cristo, Senhor e Rei, não meu ou seu, mas de todos e de toda a sua imensa, boa e bela criação.
Ah, já ia me esquecendo, o improviso musical que criamos, disponibilizamos abaixo e chama-se: “Wakaka e o sol sempre brilhará”.
