Eleições 2026: como sustentar ou derrubar uma torre política de marfim?   

Esse é realmente o grande dilema das últimas eleições. Depois de tantas e tantas declarações abertas de figuras públicas de alto escalão do executivo e do judiciário sobre serem adeptos do ideal social comunista, inclusive afirmando que se orgulham de serem chamados assim, acreditar que determinado partido e sua posição política representam realmente uma alternativa republicana e democrática é escapar demais para o reino da distopia e da negação da verdade. Esse movimento de avanço em direção a um socialismo autocrático é evidente, haja vista uma centralização cada vez maior do poder no governo federal, com o esvaziamento da independência/autonomia dos órgãos pertencentes ao sistema de freios e contrapesos. 

Outro sinal desse atropelo democrático se esconde no fato de que há tempos não se pode falar publicamente contra a pessoa de determinadas personalidades políticas sem que a expressão negativa seja considerada crime, sob o risco de ser processado e preso. Ora, em regimes democráticos, onde impera a liberdade civil, toda e qualquer pessoa pública sempre sofreu com desqualificações de apelo crítico e generalizantes sem que em resposta houvesse uma represália jurídico-formal do Estado em termos de acarretar prisão criminal. Isso gera socialmente o que conhecemos como: cala a boca, senão eu te prendo, próprio dos sistemas políticos ditatoriais, como recentemente vimos acontecer em países vizinhos ao nosso, cujos governos eram irresponsavelmente chamados de “amigos” ou “ermanos”. Tais acontecimentos produzem em cadeia o fenômeno da espiral do silêncio – o isolamento da livre expressão dissonante ao pensamento hegemônico propagado pelo ideal político de governo dominante e tirânico. 

Diante disso, pelo panorama do sistema político-administrativo delineado nos últimos tempos, é difícil não ver, para quem sinceramente estiver disposto, o avanço de um projeto de instauração de um socialismo real, como outros tantos efetivados ao redor do mundo. A novidade é que o projeto socialista na atualidade não é mais aberto, pois acontece e se desenvolve no interior do sistema republicano, corroendo-o e derrubando-o aos poucos. O socialismo moderno utiliza, inclusive, para a realização do seu intento autocrático, termos bem vistos e aprovados socialmente, tais como  “democrático”, “democracia”, “pluralidade”, “respeito a diferenças”, “tolerância” e assim por diante. E consegue confundir o povo, emplacando a ideia de que realmente defendem esses pilares políticos. Essa dicotomia inconciliável entre socialismo autocrático e defesa de direitos civis cai na malha social e convence incautos,  pois vivemos sob a orientação epistemológica relativista, que prescreve a mentalidade coletiva (amplamente aceita) de que não há verdades em si mesmas sobre os objetos sociais, deixando o convencimento e afirmação da “verdade” nas mãos de quem comanda a publicidade da narrativa social mais atraente, por exemplo a ideia de que a esquerda detém o monopólio da proteção da democracia, da liberdade humana, da prosperidade popular etc. 

A manipulação política atual para angariar adesão à ideia de um suposto, mas inviável socialismo democrático na América Latina, se dá em torno dos seguintes perfis humanos: 

1) pessoas que entendem o mundo e a realidade superficialmente a partir de expressões conceituais generalizantes  (aquelas que aglutinam numa só palavra ou expressão vários sub conceitos e signos, distorcidos e  impropriamente atribuídos) amplamente divulgadas pela academia, pela grande mídia e por influenciadores digitais, estão propensas a acreditar sem restrições neste produto socialista disfarçado de democracia. Importa mensurar aqui que essa linha de produção linguística – de conceitos aglutinadores, é uma iniciativa que visa alimentar a mente dos indivíduos sociais com um pensamento pronto e acabado. Pois, à medida que a sociedade civil vai se acostumando a usar palavras ou expressões únicas que sintetizam objetos complexos da realidade social – Ex.: facista, genocida, homofóbico, racista, imperialista, golpista, preconceituoso etc., gradualmente seus sujeitos vão se acostumando a concluir ideias importantes da vida, sem que precisem realizar o processo analítico (cuidadoso e detalhado) próprio da razão lógico-discursiva – o raciocínio propriamente dito, a base da liberdade humana. Portanto, quando os indivíduos de uma sociedade passam a admitir e a empregar no seu cotidiano essa nova ordem sintética do pensar, acabam por cair na armadilha de um plano direcionado para a manipulação do pensamento individual humano. O livro 1984 de George Orwell (1949), traz uma ilustração dessa engenharia de dominação política pela linguística. Na sociedade narrada, periodicamente o Estado revisa o livro linguístico da nação para enxugar a língua a cada nova atualização, com a justificativa de que alguns termos se tornaram desnecessários ou obsoletos. Há um momento no livro em que os cidadãos comemoram quando,diante da chegada de uma nova edição do livro, palavras são retiradas do manual da língua daquela sociedade. A ideia central naquela ficção distópica é a de que os cidadãos esperam, tamanha a “manipulação píquica e cognitiva a qual foram submetidos, pelo o dia em que não precisarão mais pensar ou processar analiticamente seus juízos, pois uma única palavra já lhes dará o comando pragmático de seus entendimentos e suas ações. É a novilíngua da sociedade autocrática do Grande Irmão. Tal descrição fictícia parece distante para você?

2) pessoas que vivem de “carícias ao querer subjetivo individual” e que buscam aceitação comportamental irrestrita, sem crivos morais antropológicos sérios e concretos, também são alvos de fácil captura pelo discurso, pelas ideias e políticas relativistas modernas. Afinal, se não existem verdades objetivas, toda vontade humana é legítima e está contemplada pelo ideal político que a professa “defender”; 

3) pessoas ávidas por apelos sentimentais de proteção, de acolhimento, de encaixe e de ressignificação social, do mesmo modo são alvos certeiros do novo layout da linha política revolucionária atual – que poderia ser chamada de a “revolução do espírito do ressentimento coletivo”. Aliás, os  grupos chamados identitários são artificialmente separados do todo orgânico, com intuito de gerar a velha dialética invertida de Karl Marx, onde o motor da história está no conflito, na disputa, na inimizade interminável entre grupos ou classes. É a clássica luta de classes diluída no discurso contemporâneo. 

Em nosso tempo, após o advento do socialismo frankfurtiano (1923 – início / 1930-1960 – eixo central), da teoria revolucionária de Herbert Marcuse (início – 1932-1933 / eixo central – 1964-1969) e da intensificação do pensamento globalista (início – final da década de 1970 e início da década de 1980 / eixo central – a partir de 1990) propagador de uma ética universal – o politicamente correto, o segredo e a força da manipulação de mentes do povo para aderirem a ideais políticos distópicos (como o socialismo marxista moderno, disfarçado de esquerda democrática), evidentemente equivocados e não republicanos, se dá a partir de três importantes pilares: 1) a inversão da realidade; 2) a manipulação do discurso para tornar o aparente e o verossímil convicções de certeza social; 3) a divulgação ostensiva da narrativa ideológica construída por longo período de tempo e em diversos domínios sociais.  

Como as experiências reais de socialismos de viés marxista-leninista ao longo do século XX foram as mais desumanas e terríveis (para abrandar a descrição) não daria para prosseguir com o plano revolucionário utilizando o mesmo discurso. A solução foi simplória, aparentemente inocente, mas socialmente eficaz. Fala-se em democracia, mas pratica-se opressão e perseguição à controvérsia de ideias. É só lembrar do que o TSE fez com a Jovem Pan nas eleições de 2022 – impondo listas de afirmações proibidas, as quais não era permitido ao jornal anunciar. O que gerou uma ruptura interna no quadro de jornalistas qualificados que a empresa tinha. Essa ação ditatorial empregada à liberdade de imprensa teve de ser obedecida em 2022 por todas as demais empresas do ramo comunicacional. Parece que o panorama de possível censura permanece, tendo em vista algumas entrevistas mais atuais. 

Mantêm-se as instituições democráticas na formalidade (no papel) – aquelas cuja existência e o funcionamento são fundamentais ao equilíbrio de forças para conduções políticas legitimamente republicanas – Tribunais Superiores, MPF, Polícia Federal etc.; mas na prática estas parecem cada vez mais unificadas e conduzidas pelos ditames do poder político central, de perfil mais enérgico, com linhas de ação mais dominadoras. 

Na aparência midiática (universidades, escolas, meio literário, jornais tradicionais, meio artístico etc.) resta a narrativa: tudo são flores, amores e democracia. Na prática real ou na práxis marxista (ação revolucionária consciente) o que se tem é a constituição dissimulada e gradual do famigerado partido único, que, nos casos em que se consolida, solidifica a autocracia socialista. Graças a Deus, esse tenebroso panorama conhecemos só de longe em países como China, Coreia do Norte, Cuba, Vietnã e Laos. Mas, a impressão é a de que a situação está cada vez mais perto de nós. Tem também os países que embora admitam que outros partidos políticos coexistam legalmente, o partido governante utiliza o aparato estatal, a mídia e a repressão para impedir que a oposição vença quaisquer eleições. Aqui, em nossa vida social e política, não sabemos o que é essa realidade, não é mesmo?

Outra característica marcante do modo de operação de iniciativas políticas de caráter socialistas marxista-leninista é a difamação em larga escala de figuras políticas de oposição que tenham clamor popular legítimo e orgânico, com condições reais para disputar politicamente o poder frente ao  governo.  O mecanismo difamatório se executa mediante a utilização do aparato social disponível e sob sua influência (mídias jornalísticas, professores, artistas, influenciadores digitais etc.).  A estratégia é simples e funciona: utiliza-se da superficialidade das discussões sociais relevantes para emplacar de forma distorcida e equivocada conceitos depreciativos à determinada pessoa pública, aproveitando-se de suas falhas ou de seus deslizes pessoais comportamentais ou meramente comunicacionais, a fim de massacrar sua imagem e, assim, destruir sua reputação social e alijá-la da vida pública viável. 

Ex.1: O personagem político é rude e direto ao falar.  Ao perceber esse perfil comunicativo não muito diplomático, engenheiros sociais criam para ele o estereótipo de “desumano”, mesmo que suas palavras representem verdades, pelo menos dentro de um arcabouço teórico determinado. Depois de criado o termo o divulgam veementemente na sociedade pelos veículos de comunicação disponíveis que aceitam a difamação como mercadoria publicitária. Quando tal designação pejorativa atribuída à determinada pessoa é incessantemente veiculada na sociedade, por um longo tempo, o cérebro da pessoa comum (ocupada com as lidas diárias) termina por sucumbir a essa contaminação. No final das contas, acredita-se cegamente ser aquele estereótipo a identidade da pessoa pública difamada, uma  “verdade absoluta”, impassível do exercício do contraditório. Em seguida, começam a surgir na vida social  investidas agressivas contra qualquer argumento ou discurso em favor daquela personalidade não acolhida pelo sistema ou Establishment. 

Ex.2: O personagem político no exercício do governo decide em meio a uma crise emergencial de saúde pública (uma pandemia) adiar a compra de vacinas por estas não terem ainda atendido adequadamente todos os critérios técnicos necessários à garantia da segurança da saúde coletiva dos indivíduos da  sociedade. Sem considerar e sopesar a dificílima realidade da situação política em pauta, bem como sem considerar a seriedade da responsabilidade administrativa quanto à compra de vacinas em um ambiente de incertezas dessa natureza, engenheiros sociais criam para este gestor o estereótipo de “genocida”, argumentando que ele teria rejeitado a compra das vacinas naquele momento por desinteresse político e ceticismo científico, mesmo depois de a sociedade conhecer casos de efeitos colaterais sérios e até fatais possivelmente associados ao recebimento da dose de algumas vacinas distribuídas mundialmente. E pior, quando este mesmo gestor público, junto com equipes médicas notáveis, encontra uma via emergencial para o dilema pandêmico em questão, expressando publicamente apoio à tentativa terapêutica de uso de medicamentos já validados e disponíveis no mercado, é pronta e igualmente alvo de divulgação em massa da qualificação de “genocida”.

Ex.3: O personagem político tem um histórico profissional militar, tem perfil conservador, ama seu país, é liberal e contrário ao socialismo. Aproveitando-se dos gatilhos históricos nacionais e internacionais, mas sem concreta relação com a realidade atual e contextual, engenheiros sociais criam para ele o estereótipo de “facista”. 

E assim tem acontecido ao redor do mundo contemporâneo. Esse tem sido o estratagema de políticos adeptos ou simpatizantes do socialismo para amplificarem suas narrativas ideológicas (isto é, sistemas utópicos ou irreais a serem impostos sobre a sociedade). 

Estamos diante do politicamente correto, movimento promovido mundialmente (principalmente a partir da década de 1990) com o intuito de construir uma ética universal de pensamento, de expressão linguística, de cunho comportamental e legal. A arquitetura social desse movimento se vale de um  modo de operar específico baseado em instrumentos psicopolíticos ordenados e sequenciais:

1) primeiramente utiliza-se da vigilância da linguagem à nível global,  tornando comum e até natural nas sociedades a ideia de que determinadas expressões e palavras e compreensões de mundo sejam taxadas de descabidas, culturalmente e cientificamente ultrapassadas, preconceituosas e desumanas;

2) consequentemente, à medida que tal modo social se instaura (é só ter paciência e persistência que acontece), vemos surgir gradualmente na sociedade o que se conhece como espiral do silêncio, isto é, quando os pensamentos socialmente majoritários começam a não aparecer mais nas interações humanas comuns por sucumbir à intimidação, ao medo de desqualificação social e até represália jurídica;

3) Todo esse processo de construção e sedimentação do modo de vida social encerrado pelo politicamente correto (incluindo o patrulhamento linguístico e a espiral do silêncio) necessita e é desencadeado pelo componente comportamental humano do patrulhamento ideológico. Esta importante ação dentro da dinâmica do politicamente correto é conduzida pela figura dos patrulheiros ideológicos, a saber: são aquelas pessoas que conhecemos e que estão em todos os espaços sociais prontos para atuar como agentes morais, propositores da verdade ética sobre a vida ou sobre os assuntos humanos contemporâneos. Como dito, tais figuras estão em todo lugar e intervêm energicamente onde se desenvolvem as relações interpessoais discursivas com o fim de que as ideias “tabeladas” ou “homogeneizadas” pela ordem globalista se imponham a todo e qualquer diálogo. Daí se extraem as características de onipresença, indignação, intransigência, persistência, impaciência e histeria desse tipo de conduta. Sendo porta-vozes de uma ética universal, representativa de uma indiscutível máxima humanista, como alguém ousa discordar desse discurso ou melhor, do que estou falando?   

4) O passo final para o funcionamento desse processo e estrutura de propagação do politicamente correto é a formação de leis (normas jurídicas cogentes e sancionatórias) que possam orientar legalmente as sociedades e regulá-las com a imposição de penas, se possível criminais, pois trata-se de construir uma ordem ética unidirecional e homogeneizada de compreensão de mundo e de pessoa humana, imposta de cima para baixo. Isto é, a partir da imposição legal de uma ideia desarticulada com a realidade orgânica, natural e temporal,  comprime-se, prensa-se a realidade, como se esta fosse um monte de lixo recolhido pelos novos messias recicladores do mundo moderno. Uma realidade prensada à força pelo movimento ético contemporâneo asfixia-se em sua pluralidade natural (aquela que respeita à ordem da realidade objetiva), perdendo gradativamente sua liberdade de criar e reagir. É de se considerar que esse aspecto e todas as demais nuances do movimento do politicamente correto acontecem desde o início de sua dinâmica (a vigilância da linguagem), mas ganham força e se intensificam com o tempo, até que formam a imagem ou o espírito social do indiscutível. Esse é o momento propício, projetado e esperado para a formação de uma legislação política universal. Um exemplo disso: no passado, as sociedades eram muito diferentes em seus modos de falar, seus pensamentos, suas culturas, seus hábitos e costumes. Atualmente, um professor na Bélgica toma para sua vida prática os mesmos e idênticos princípios e valores que um médico no Brasil ou um estudante nos Estados Unidos ou um cidadão comum de  qualquer outro país dentro do eixo de influência do movimento do politicamente correto. Está aí, estamos diante de momentos propícios para a vinda de legislações locais, regionais e nacionais que cunham o modo de vida distópico ou ideológico (o ethos cultural inventado), achatando para abaixo da linha do solo terrestre a vida real que funciona, pois acontece naturalmente na ordem de coisas humanas e sociais. 

5) Sobre a estrutura e dinâmica da ordem politicamente correta com a qual nos deparamos cotidianamente, há ainda um elemento a se considerar. Ele se insere e atua em todos os demais estratos dessa dinâmica de cunho universal. Tal como gotículas de água dispersadas por um borrifador e que caem suave e incessantemente em toda superfície de flores plantadas em um jardim de terra seca, artifício indispensável para manterem-nas ali, vivas naquele inóspito lugar., o fenômeno a que denomino sentimentalismo moderno  precisa ser aspergido sobre as mentes individuais, ao longo do tempo e das culturas, a fim de que o intento de construção de uma ética caótica, monista e universal se desenvolva e se consolide socialmente. Mas, como exatamente isso se dá?

O discurso  baseado na realidade sensível captada pelos sentidos externos – visão, audição, olfato, paladar e tato, que ordinariamente se aprimora pela observação e pelo exercício da racionalidade especulativa, se estabelece naturalmente e por si. Portanto, pode até ser duro e amargo que, ainda assim, cumprirá satisfatoriamente seu propósito de anunciar a verdade, fazendo-se bem entendido pela maioria das pessoas. Doutro modo, os discursos ideológicos, incongruentes com a realidade natural, afirmada e ratificada por uma cosmologia milenar, anterior e superior ao advento humano, precisam ser banhados por uma espécie de tinta colorida ou um tipo de verniz brilhante para que, ganhando cores e brilhos artificiais, não espantem a consciência moral humana, mas a aproxime para um campo minado de armadilhas sem fim. Noutras palavras, a  intelectualidade e o discurso distópico contemporâneo precisa fundamentalmente receber uma camada de aparência de verdade que possa realmente fazer sentido para muitos e, assim captá-los como militantes ou veementes porta-vozes do projeto pretendido. Está aí o verniz hipnótico da contemporaneidade, a presença do elemento sentimental impregnando tudo, simplesmente tudo que a empresa do politicamente correto produz pelo mundo. O modo de operar desse mecanismo se dá no âmbito da propagação de um discurso mundial, de uma ética contemporânea. Tal qual se faz com a tinta e com o verniz aplicando-os sobre objetos antigos para modificarem suas aparências originais, utiliza-se atualmente o recurso hermenêutico de se lançar a tudo que há na sociedade fortes elementos emotivos, que explorem dores intensamente vivenciadas, sofrimentos que perduraram na história e conflitos íntimos envolvendo lógica e psiquê individuais e/ou coletivas, provenientes do lugar de se estar à margem da ideia de normalidade. 

Esse mecanismo permite que sejam criadas teorias, conceitos e modos de entender o mundo e de se comportar nele completamente desvinculados da realidade que se impõe, que se informa a olhos nús, que se submete ao crivo das evidências mais claras e simples. O sentimentalismo moderno é o eixo comum, é a chave que abre a porta do inimaginável, da mais fantástica das fantasias, as quais nem mesmo a infância mais criativa poderia projetar. Como um pólen mágico que adentra às narinas daqueles que sentem seu cheiro, sofrem suas alergias e padecem a dor de quem é atacado em conjunto por um enxame de abelhas operárias, surge o sentimentalismo moderno, aplacando socialmente o insuportável e inseparável peso decorrente da fuga do real, da objetividade simplória da vida, da sã realidade. Uma vez que cheiram o pó sentimentalista do discurso politicamente correto, pacificam-se e reconciliam-se, ainda que precária e superficialmente, com suas consciências morais (que sempre obedecem a ordem natural, objetiva e transcendental  de coisas), por meio de um fetiche ou feitiço discursivo. Endossa-se a loucura, acaricia-se a mente imersa em fantasias subjetivistas, próprias do mundo moderno. 

Diante desses acontecimentos, todos ficamos sujeitos ao engano conceitual, social e político descrito acima. Contudo, no seio dessa densa guerra ideológica, onde a ideologia socialista luta contra a classe da realidade orgânica e natural da sociedade, surgem duas interpretações possíveis: 

1ª) pessoas cuja visão de mundo não está amparada em utopias ideológicas, mas na realidade e na organicidade da vida em sociedade, percebem o desvio dos conceitos e dos estereótipos equivocadamente lançados, bem como percebem a intenção de manipulação da compreensão da realidade com o fim de inflamar coletivamente as mentes e os corações de um povo para odiar determinada figura pública e adotar certo modo de ser e de pensar. Tais pessoas notam nesse modo de ação um ardil de quem não tem compromisso com a vida real e com a verdade das coisas, mas faz tudo, sem avaliar consequências, para alçar o poder político e, assim, implementar forçosamente à malha social, de modo dissimulado e autocrático, sua ideologia distópica e despótica. 

2º) pessoas cujas crenças desenvolvidas ao longo da vida estão amparadas em ideologias políticas, verdadeiras religiões civis, como diria Eric Voegelin, acreditam imediatamente na narrativa feita, seja para assumir temíveis loucuras como conceitos humanizados, seja para aceitar como verdades os estereótipos forjados e atribuí-los ao personagem político de oposição a ser derrubado. Passam, então, e a atuar energicamente como militantes e propagadores dessa “verdade”, que não passam: ora de um delírio coletivo socialmente corroborado; ora de uma difamação infame socialmente anunciada por sujeitos detentores do aparato do barulho midiático. Esse segundo grupo de pessoas detêm um tipo de interpretação da realidade muito difícil de modificar, pois é fundamentada em um sistema ideológico social (que figura uma pseudo realidade, impossível de ser concretizada). Como convencer então alguém de uma realidade objetiva, transcendental e individual, como esta que estamos tentando retratar por meio deste ensaio,  se sua plataforma primária de crenças consiste na ideia de que o mundo resume-se a uma guerra de narrativas relativistas de poder e que a essência do homem é, em última análise,  totalmente dependente de uma interpretação materialista e coletivista?     

Voltando ao início desta reflexão política, esse é realmente o grande dilema das últimas eleições: saber como se dá psicologicamente a adesão social a essa plataforma ideológica distópia e despótica da esquerda contemporânea brasileira, como se ela pudesse representar uma legítima opção dentro do Estado Democrático de Direito. Depois de tantas e repetidas declarações abertas de apoio e de pertença ao ideal comunista, feitas por figuras públicas atuais de alto escalão do executivo e do judiciário, como estes mesmos personagens conseguem se fazer passar, perante parte do povo, por políticos e/ou juristas republicanos e democratas que almejam atuar em favor do povo, especialmente do pobre, do trabalhador e dos grupos minoritários? 

Dá para entender o apoio a eles, caso se entenda ou se acredite que essas falas sejam apenas jogos de marketing. Situação esta que de fato não se confirma, porque uma dessas figuras é, junto com nada mais, nada menos que o eminente Comunista Fidel Castro, o idealizador do Foro de São Paulo (1990) – reunião periódica de organismos socialistas e comunistas da América Latina. 

Sei, entretanto, que é muito difícil deixar para trás um ideal de luta e uma crença professada por toda uma vida. Mas é preciso ter coragem e humildade para implodir um império intelectual construído ao longo da nossa existência pessoal, se é que queremos honesta e sinceramente caminhar para o conhecimento da verdade e do bem, ainda que essa busca e essa trilha tenham que ser revistas e reordenadas ao longo de todo um processo de vida. 

Temos que ter claro que constantemente o amor à verdade nos chama a derrubarmos pela base o edifício de nossa intelectualidade, o orgulho e até identidade construída ao longo dos tempos. Caso não atendamos a essa voz interior da consciência moral, conduzida e ordenada pela sindérese de S. Tomás de Aquino, corremos o implacável risco de: 

  1. Por proteção ao orgulho pessoal ou à manutenção da imagem social arduamente construída ao longo da vida, termos que manipular, pelo mecanismo da dissonância cognitiva, nossas consciências morais ao ponto de ratificarmos movimentos revolucionários contemporâneos como legítimas ações sociais de reivindicação e recuperação de danos e falhas do percurso histórico. Ex.1: concordar com posturas políticas anuentes de atrocidades humanas praticadas por grupos terroristas; Ex.2 estar em consonância com movimentos políticos que discursam abrandamento dos conceitos vinculados ao crime simples e organizado; Ex.3; apoiar manifestações pseudo estudantis baixas, agressivas e desrespeitosas, como se fossem representações legítimas de oposição intelectual. 
  1. Termos que negar evidências claras e ofuscantes da realidade sensível e intelectual, como:  isto aqui é o ser humano no ventre; isto aqui é um homem, isto aqui é uma mulher, este é o bem, isto é o belo etc.
  1. Perdermos a oportunidade de sermos realmente humanos e crescermos. Ora, só há uma forma para avançarmos nessa empreitada de crescimento e amadurecimento humano. Tendo consciência de nossa incompletude e falibilidade, sabemos que ao longo da vida iremos cometer erros analíticos, erros de juízo e erros comportamentais que nos formam como pessoas. Sendo assim, não importa, a idade, tenhamos 16, 18, 21, 30, 40, 50, 60, 70 ou 80 anos ou mais, será sempre importante proceder reavaliações de conceitos, visões, opiniões e comportamentos, a fim de nos adequarmos melhor à realidade em si mesma. Para conhecermos a realidade da melhor maneira possível não podemos recorrer ou sucumbir ao engano de avaliações mediadas pelo sentimentalismo ou pela conformação social. Em respeito a ela, precisamos confrontar honestamente a sua força e a sua ordem natural com o que acreditamos em termos de ideias de mundo formada.  

Alguns podem ter erigido seus fundamentos sobre solo irregular de uma realidade parcial, mas que ainda admite uma construção consistente. A modificação de bases intelectuais nesse caso será menor, menos custosa para o seu orgulho pessoal. Caso enxerguemos que nossa construção se erigiu sobre a areia ou sobre um manguezal de uma utopia ou distopia, precisamos iniciar logo o longo e árduo processo de demolição do edifício construído sob risco de ruirmos consciente e humanamente junto com ele, quando este desabar. 

Devemos enfrentar o fato natural de que o nosso querer não é a lei universal que determina a realidade. Precisamos romper com essa máxima – da vontade individual ou geral como lei, pois é exatamente ela que desordena e inviabiliza o correto pensamento lógico e discursivo na contemporaneidade. Pelo contrário, a vontade individual e a geral são elementos da realidade e, portanto, estão adstritos às suas normas e regras, à sua ordem de coisas, que a tudo ajusta, a tudo quer bem, inclusive a volição humana e sua necessidade e propensão política.  

Confesso: demorei cerca de 40 anos para decidir derrubar minha torre de marfim. Mas, enfim, a demoli pela base. E você, quantos anos tem e o que fará quando a realidade chegar e  sua mente incomodar?

Votemos bem.

T. Assinger

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