Conversando sobre política com os meus botões: uma carta que resolvi não entregar

Elegemos quem queríamos, então tudo volta à paz com que estávamos acostumados. Agora vêm o silêncio e a indiferença para o que acontece a olhos nus. Passamos a tratar dos assuntos da categoria, como pessoas maduras. No entanto, um ato contínuo ou pelo menos um desfecho eleitoral precisa ser trazido aqui nesta minha solidão. O day after, o dia seguinte chegou. Foi prenunciado em debate em tom bastante democrático, não por membro do Judiciário, mas pelo Presidente, em plena campanha. A famosa teoria do ‘lugar de fala’ nos informa que alguém que não experiencia concretamente uma situação não pode falar dela. Porque não sentiu, não passou, não viu e não esteve no lugar da vivência, seu olhar e sua interpretação não alcançam a verdade situacional. Não no caso de um dos candidatos à Presidência, que não estava lá, mas foi certeiro em sua previsão, dizendo expressamente qual seria o grande dia: 25/10/2026. A profecia se cumpriu apenas sete minutos após o resultado das eleições. A exatidão da previsão pode ter sido também decorrente do uso de uma ‘bola de cristal’, uma simples intuição ou a sagacidade de um político experiente. Afinal, temos separação de poderes, independência e autonomia institucional neste país onde a democracia tem vencido desde 2022.

Pensar em perseguição política aqui, jamais! Seria demais cogitar isso. Estivéssemos olhando de fora do país, sem convicções políticas sociais arraigadas, acharíamos muito estranho o que vem acontecendo estruturalmente durante alguns anos aqui, bem como consideraríamos ao menos curioso um candidato à presidência, vencido no pleito, precisar sair às pressas com sua família do seu país dois dias depois das eleições. Mas, no nosso caso, estamos no país em que a coisa toda aconteceu e, pior, votamos contra o político que saiu do país, temos raiva, ódio dele , acreditamos nas notícias e em provas produzidas em inquéritos e ações judiciais um tanto suspeitas quanto ao ativismo e às parcialidades judicantes. Em síntese, estamos reféns da autoconfirmação do nosso entendimento político. Como veremos a realidade assim? Algo semelhante aconteceu com Maria Corina Machado na Venezuela (ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2025). Depois de ser considerada inelegível, ela viveu por um tempo escondida no país e tinha um mandado de prisão específico contra ela. A diferença foi que ela começou sua jornada rumo ao exílio de barco. Pura coincidência. Aliás, tem havido muitas coincidências quando o assunto envolve Venezuela e Brasil. Neste país, entretanto, as instituições fundamentais ao Estado Democrático de Direito não são as donas da bola, nem atuam no mesmo time.

Lá fora, desde 2022, já se tem a compreensão de que algo muito diferente está acontecendo no país canarinho. Aqui, pelo menos metade da população também percebeu o clima esquentar e avermelhar-se e tem tentado alertar a todos e se posicionar nas urnas desde 2018. Como uma República Social Democrática pode ser rápida em agir contra o crime, hein? O importante mesmo é que tudo seja feito dentro da lei, da democracia formal, com apresentação de provas contundentes (hoje, em um mundo dirigido por forças políticas absolutas e inquestionáveis, temos provas e notícias para tudo) e, principalmente, com apoio de parte do povo e dos letrados em política social! E ai, alguém se candidata a questionar o status quo como opositor? Eu não.

Esses dias, circulou por aí figuras animadas (GIFs) com um tom sarcástico sobre o resultado das eleições no Brasil. Quem a divulgou foi certeiro(a) nesta inteligente, gentil e humana análise política, eis que a imagem mostra o Bolsonaro sendo obrigado a engolir uma bandeira dos Estados Unidos, bem como com a foto do pai e do filho Bolsonaro em uniformes de criminosos na prisão. Mas, como se diz por aí, ‘vida que segue, política é assim mesmo’.

Afinal, acabaram as eleições! Agora o grupo, o sindicato e a vida voltam ao normal. Ao menos para quem não está sendo perseguido, para quem não está e não será preso, para quem não teve que se exilar, para quem pode expressar livremente suas convicções e visões de mundo (em sintonia com o mecanismo do politicamente correto) e para aqueles que entendem que o fim – a ‘justiça social’ – justifica todos os meios e atrocidades.

A título de exemplo do que é a realidade social fora do grupo hegemônico que se alinhou ao espírito globalista politicamente correto, que pretende uma reengenharia social de unificação de pensamento antropológico e cultural global, trago um exemplo pessoal. Faz bastante tempo que emprego estudos em humanidades e, pelo menos há 10 anos, está cada vez mais difícil avançar com pesquisas e/ou realizar pronunciamentos na vertente de pensamento clássico e/ou conservador. Há um severo ambiente de impedimento e de escassez na academia, bem como de uma espécie de fiscalização ideológica em quase todos os espaços sociais. Falta ainda o espaço da família e da igreja, em algumas poucas situações. Para entenderem o nível da coisa, já tive, por exemplo, uma publicação filosófica em proteção à vida intrauterina – manifestando-me contrariamente à ADPF 442 – reprovada em redes sociais,como sendo um mal a ser banido socialmente.

Sendo bem sincero, tenho profunda tristeza em ver o ostensivo apoio popular (com risos, sentimentos íntimos de gratificação hedonística, como uma espécie de moralidade às avessas etc.) ao que está acontecendo – um candidato vencido no pleito eleitoral para presidente ter que sair às pressas de seu próprio país com a família dois dias após o resultado. Fingimos normalidade à autocracia explícita e legitimamos o modo de operar típico e corriqueiro de regimes socialistas. Evidentemente, esse dilema existe somente mundo afora, em lugar bem distante de nós. O momento vivido por esse nosso amado mundo distante está lembrando um tanto o da Venezuela anos atrás.

Mais uma vez, tomando como inspiração a arte contemporânea mencionada anteriormente, que mostra a imagem do Bolsonaro sendo obrigado a engolir a bandeira dos Estados Unidos, creio ter havido mais uma certeira previsão de futuro. Não para o Brasil, pois aqui não há esse perigo, estamos em solo republicano e democrático. Mas, parece que em algum lugar distante (…), se a coisa continuar assim e nenhum milagre acontecer por lá, é provável que os seus contemporâneos ou seus filhos (daquela distante nação) vejam e presenciem algo semelhante ao que aconteceu com Manuel Urrutia Lleó, Huber Matos e José Miró Cardona em Cuba, quando, depois de livrarem o país de Fulgêncio Batista, perceberam que os planos de seus aliados – Fidel Castro e Ernesto ‘Che’ Guevara – não eram bem os de restaurar a democracia cubana, mas algo energicamente mais ‘justo’ e grandioso. Dois deles conseguiram se exilar nos EUA. O terceiro ficou preso por 20 anos no regime e, ao final, depois de solto, foi também morar na terrível terra imperialista dos EUA. Ora, eles iriam escapar do Regime Comunista para onde, senão para un país livre?

Cuba e o escasso modo de vida de seu povo estão aí consolidados na história, atravessando gerações, na experiência pessoal de seres humanos e famílias reais há cerca de 70 anos para quem quiser ver. Afinal, a lógica é confiável: o coletivo e a justiça social a tudo justificam. Esse antigo discurso de justiça social e o atual discurso do sentimentalismo subjetivista contemporâneo (que inebria almas e fantasia modos de viver) são excelentes e eficazes instrumentos de manipulação mental (por via emocional) da opinião pública para adesão a regimes desse tipo.

Precisamos ter cautela, pois nessa luta contra o mal podemos ser feitos soldados ou militantes de regimes políticos de precariedade e escassez, muitas vezes sem volta.As mazelas e desequilíbrios do Estado Liberal, embora péssimos, tristes e reprováveis, soam insignificantes em comparação àqueles provocados pelos Regimes Socialistas implantados na América Latina e em outros tantos lugares e continentes.

Desculpem-me o desabafo.

Deus tenha misericórdia da humanidade. Oro para que sejamos guardados, abençoados, iluminados e que nossas almas e corações amem de verdade a vida e o semelhante, seja este quem for. A esperança do cristão está no porvir, não no materialismo histórico que fundamenta toda a inversão de vida e de realidade vivenciada por outrem em um mundo distante.

Dou uma pausa, respiro fundo, inclino minha cabeça para baixo e, com os olhos fixos em meus novos amigos confidentes, pergunto:

Será que vale a pena sustentar o orgulho de uma convicção política pessoal (minha opinião política está correta, sempre esteve, é uma vida inteira de luta, não volto atrás) ao preço da miséria e da opressão de toda uma nação livre, pacífica e diversa? Nossos vizinhos precisaram passar por um regime autocrático que afundou um país riquíssimo e deixou seu povo na miséria da desumanidade e da fome, a fim de que conseguissem, individualmente, na pessoa de Maria Corina Machado, o Prêmio Nobel da Paz em 2025. Mas o povo ainda está lá, sofrendo. E nós, o que queremos: repetir o já conhecido caminho do martírio premiado ou renovar os ares de nossas compreensões políticas para humildemente resgatarmos a consciência de nosso amado povo e país, dando a eles, a nós mesmos, o prêmio do cotidiano próspero e livre? Eu votei “convicto” de uma causa duas vezes, por engano apoiei um projeto que não queria, mas acordei. E vocês, queridos botões?

T. Assinger

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